quarta-feira, 20 de maio de 2009

RESENHA | Orquestra Imperial


Orquestra Imperial

Carnaval Só Ano Que Vem (Som Livre; 2007) 


De strip-tease em Porto Rico a ereção na gafieira

Quando as coisas começam a ficar complicadas demais, é melhor juntar os amigos pra tocar um samba. Sem grandes preocupações. A coisa flui e todo mundo se diverte fazendo versões inusitadas de tudo quanto é tipo de música. Novos encontros e o time vai aumentando. O pessoal que fica sabendo quer ver a banda tocar. Ainda mais quando é formada por músicos de currículo. E o bom nome dessas caras faz com que, pelo menos, as músicas sejam ouvidas para ver do que se trata. Foi algo assim que aconteceu com a carioca Orquestra Imperial e seu primeiro disco, Carnaval só ano que vem.

Falei com um amigo – adorador de música, estudante e professor de história - sobre este lançamento e ele disse que ainda não ouviu, mas já assistiu à Orquestra em especiais na TV. “Não é um monte de gente da classe média tocando samba antigo?”. Respondi que talvez nem todos, mas uma grande parte da banda é sim. “Você acha que quem é de classe média não pode tocar samba?”, perguntei. “Ah, meu! (com seu jeitão da Mooca) eu acho que samba de raiz não!”. Tá certo que ele foi radical demais, só que não vai ser dessa vez que eu vou conseguir desmentir esse pensamento.

A música Imperial tem influência clara do samba de gafieira, mas é feita para quem gosta e para quem não gosta de samba. Na verdade, esse talvez seja o mérito verdadeiro desta bandona - são, ao todo, 19 músicos. Há entre seus integrantes o produtor Berna Ceppas, Rubinho Jacobina (autor do sucesso “Dr. Sabe Tudo”), Nelson Jacobina, Rodrigo Amarante, Thalma de Freitas, Pedro Sá, Kassin, o lendário baterista Wilson das Neves etc. A lista é longa. Apesar do gosto por sons antigos, estes músicos são bem ligados nas novidades. Dois deles, Berna e Rubinho, estão ali para comandar teclados e efeitos eletrônicos.

Outro ponto que demonstra o estilo moderninho-retrô é a parte estética. Além de folhear o encarte do disco, vale a pena dar uns cliques no site oficial (www.orquestraimperial.com.br) que é bem bonito. Lá tem um mini-perfil de todos os integrantes, poupando-nos de prestar esse serviço na resenha e tornando-a quilométrica. No link "shows" do site, há um arquivo desatualizado com as apresentações que a banda já fez e alguns vídeos – entre eles, um com a música "Amélia" na voz de Seu Jorge, ex-imperial que ajudou a repercutir o nome da banda. Seu Jorge largou porque aquilo para ele era um projeto paralelo, e quando a carreira oficial chamou, atendeu a ela.

Orquestra Imperial não é mesmo o único projeto de ninguém ali. E isto contribuiu para a formação do estilo livre, com brincadeiras. Se não fosse este clima, talvez ninguém cantasse refrões com a palavra "ereção" (Ereção) ou letras com trocadilhos fáceis como “Ela rebola pra lá. Ela rebola pra cá. Mas pra mim bola ela não dá. Ela rebola pra cá. Ela rebola pra lá. Mas pra mim eu sei que ela dará” (Ela Rebola, de Nelson Jacobina e Jorge Mautner).

O grande número de pessoas envolvidas exerceu também influências de cunho prático sobre o disco. Passaram-se cinco anos para que a gravação acontecesse – o que fez merecer um repertório de inéditas e não só com as versões que vinham tocando – e, quando aconteceu, não demorou mais de 15 dias. Tudo foi feito ao vivo em estúdio. Também, imagine a dificuldade que seria organizar gravações individuais com cada um dos músicos. Ouvir o disco com essa informação na cabeça faz a gente no mínimo apreciar a qualidade da banda. Percussões e arranjos bem feitos e precisos, tudo captado de uma só vez.

Por que não curtir ao som da gafieira pop da Orquestra Imperial enquanto o carnaval não vem? E quando chegar não vai fazer a menor diferença, porque não vai trazer nada melhor para o samba brasileiro do que este disco de inverno.

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http://www.tonelada.org/conteudo/index.php?op=ViewArticle&articleId=683&blogId=1

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